Leilane

Sei que muitas vão me chamar de doida, outras vão se identificar, mas só eu consigo entender. Talvez mais do que ser mãe eu queria parir. Sempre sonhei passar pela experiência de gerar uma vida na minha barriga, sentir cada pedacinho se formando, crescendo, se mexendo e, então, depois sentir cada contração, dor, aplicar todas as técnicas que aprendi para a hora do trabalho de parto, sentir a viagem até a "partolândia" (mundo extra onde todas as parturientes vão durante o processo), sentir aquela vida saindo de dentro de mim e, finalmente, voltar ao planeta terra quando escutasse o choro da vida. Como se na minha cabeça, pra eu renascer como mãe, eu precisasse passar por tudo isso. Anestesia, analgesia, nem estavam nos meus planos. Eu queria mesmo a dor. Queria o processo por completo. Inteiro. Sem pular etapas. Durante toda a gestação cuidei para que tudo se encaminhasse até esse momento, em nenhum momento passou pela minha cabeça que o caminho poderia ser desviado e eu chegasse até meu destino por outra rota. Fiz atividade física específica para preparar o meu corpo, fiz fisioterapia com dedos e com epi-no para preparar o períneo, deixei tudo em ponto de bala pra quando ela quisesse sair. Só não achava que não era por ali que ela escolheria vir. Na 37ª semana meu líquido amniótico começou a baixar de volume, nos deixando em alerta. Repousei, relaxei, meditei, respirei e bebi água feito camelo. Na 38ª, entrei em oligoâmnio, quando o líquido está bem abaixo do nível mínimo permitido, era hora de começar a traçar uma estratégia. Como capricorniana, era muito difícil sair do plano que tinha traçado, trabalhado e estava prestes a concretizar, para partir pra outro completamente diferente. Continuei em busca de realizar. Tentei quase todas as induções naturais que estavam ao meu alcance. Precisava entrar em trabalho de parto. Faltava tão pouco! O #vemlaurinha ganhou força. E no último dia da 38ª semana aceitei. Aceitei que nem tudo na vida sai como planejamos. Aceitei que tem uma força maior que a gente que sabe como tudo deve ser. Aceitei, principalmente, que me tornara mãe. Minhas decisões não dependiam só de mim a partir dali. Eu pensava por duas, e a prioridade era dela. O parto normal naquele momento se tornou perigoso, com riscos, grandes chances de virar uma cesárea de urgência e o mais importante, não seria humanizado, gostoso e confortável pra ela. A estrela principal do show. Onde estaria minha humanização em insistir e correr risco para ter a todo custo meu sonho concretizado dentro dos planos que EU havia traçado? Foi quando, muito carinhosamente, o meu obstetra @dralesasaoka narrou como seria minha cesariana humanizada. Naquele mesmo dia realizei minha internação. Já não queria correr risco de entrar em TP, não queria mais esperar e havia risco de a qualquer momento, sem líquido, ela entrar em sofrimento. Fui dormir devastada. Não vou mentir. Quem tem meu signo sabe o quanto é difícil um capricorniano partir para o plano B. Eu não conseguia entender, tampouco aceitar, como, tantas mulheres não querem nem ouvir a palavra parto normal e já marcam cesárea e eu, fugindo a uma estatística tão alta, tinha pavor daquela palavra, sonhava com o parto normal. Por que eu não seria merecedora disso? Não julgais. Acordei pouco tempo depois com a enfermeira vindo me buscar. A emoção já era muito grande. Já nem lembrava o tipo de parto que eu ia ter, nada mais no mundo me interessava. Só em tê-la comigo. Pendurei o nome dela na porta do quarto e saí. Fui recebida com muitos sorrisos empolgados e olhos brilhando pelo Dr. Alexandre, meu obstetra, Dr. Carlos, obstetra assistente e Dr. Bruno, anestesista. Meu marido, Paulo, entrou logo em seguida com os olhos marejados e não conseguimos segurar a emoção. Demos um beijo e nos despedimos do Paulo e Leilane para nascermos pai e mãe. Apaga a luz e solta o som! Era hora do show começar. A primeira música que deu início a esse show foi a minha preferida. O Dr. Carlos me olhou e disse: está pronta pra receber a Laura? Vamos começar! E ao som de "No Woman No Cry", eu chorei. Para acalmar meu coração, Bob na sequência me falava: - This is my message to you: Don't worry about a thing 'Cause every little thing gonna be all right. Eu sorri, respirei fundo e pensei: já deu tudo certo, Bob! Em meios a vários clássicos do Bob Marley onde todos na sala se olhavam, sorriam e cantarolavam ela veio com o coro de "Could You Be Loved". Todos os sons foram abafados pelos gritos emocionados do Paulo: Ela tá vindo amor, eu tô vendo! Nossa filhinha! Ela chegou! Quando vi as fotos entendi a emoção dele. Ela realmente estava chegando, sozinha, com seu esforço saía, como num parto normal, saindo pelo abdômen, fazendo todos os movimentos instintivos para vir ao mundo externo. Bob, meu amigo, eu não poderia amar e me sentir mais amada que aquilo no momento. Ela veio, por baixo do lençol para o meu peito, onde suspirou e se calou! Meu corpo adormeceu. Não tinha força. Meu choro vinha de um lugar tão profundo. Tive a sensação que meu coração se abria. Nunca senti e não sei se um dia sentirei um sentimento, que não tem nome para descrever, tão forte. Ficou no meu colo até o cordão umbilical perder todo o sangue, era hora dela se desligar da primeira mãe, a Placenta. Agradeci, me despedi e disse: agora é comigo. Ela voltou imediatamente pra mim, dessa vez pra fazer nossa conexão mais forte, a amamentação. E como se já tivéssemos treinado esse momento, nos conectamos perfeitamente. E ali eu percebi que essa conexão nunca vai se desligar. Leilane Lobo

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