María Gómez e Luiz Peres, pais da Inés

Seguramente quem lê este texto na tela do computador é alguém que terá em breve um bebê. E, por conseguinte, teme o parto. O medo e a angústia do desconhecido são afetos normais nessas circunstâncias. Busca-se na experiência alheia um conforto. Expectativa de conhecimento capaz de mitigar o medo. Desejo de informação, de alento e conforto para o que vai chegar. Se há algo da nossa experiência que podemos dizer é para que você, leitor(a), não espere que seu parto seja igual a este que agora relatamos. Nem igual a nenhum outro. Porque todo parto é único. Singular. Com nuances, evoluções e caraterísticas próprias. Afinal, trata-se de um novo ser que chega a este mundo louco. O que sim podemos - e devemos - compartilhar com você é o que fizemos.Em primeiro lugar, foi preciso encontrar a um médico e a uma obstetriz que fossem sensíveis à contingencialidade do parto (normal), mas preparados para intervir em caso de problemas. E aí há um "nó górdio". Porque grande parte dos médicos brasileiros foram formados e professam a cartilha da medicamentalização, da intervenção e do controle absoluto do parto. Não se pode ter controle sobre tudo. Não se controla a vida. Pode-se, contudo, ouvir o pulsar da existência e agir segundo as circunstancias. Assim, em segundo lugar, queríamos ter a confiança de que qualquer procedimento mais arrojado seria feito apenas - e apenas quando - necessário. Queríamos dançar segundo a música. O que significa, entre outras coisas, estar preparados para um parto natural (sem analgesia), normal ou cesárea. Mas, tendo plena confiança em que o corpo da parturiente e do bebê seriam respeitados.

Dito isso, e satisfeitas essas duas condições, bastou-nos esperar. O que não é fácil. Mesmo sendo o segundo filho, a expectativa é sempre alta. Quanto mais próximo da data prevista, maior o desejo de que chegue o dia do parto. O nosso primeiro filho, Xabier, nasceu com 39 semanas e 4 dias na capital do País Basco, na Espanha. Em um parto rápido, cuja fase ativa durou 35 minutos. Inés, por sua vez, decidiu vir ao mundo com 40 semanas e 5 dias, em São Paulo. Há duas semanas do seu nascimento, contudo, observávamos vários sinais. Angústia constante. Será que é hoje? Assim estivemos por um bom tempo. É preciso temperança e equilíbrio para não surtar. Porém, não foi até às 13h do dia 15 de fevereiro que o trabalho de parto efetivamente começou. Às 14horas, Jéssica, a obstetriz, chegou em casa.Examinou e constatou o início do que viria a ser o parto. Posto que no anterior parto vomitei tudo o que comi, decidi não ingerir alimentos sólidos. Apenas um sorvete e líquidos. Saímos dar um passeio. Caminhar ajuda. Mas foi um passeio curto. Uma volta no quarteirão. Voltamos rápido porque as contrações se intensificaram. Uma hora e meia depois da chegada da obstetriz já havia 5centímetros de dilatação. Hora de ir ao Hospital. Apesar de ser pronto para tal, sabíamos do parto anterior que poderíamos ter uma evolução rápida.Queríamos ir tranquilos. Não ter a preocupação do trânsito demencial de SãoPaulo. Nossa calma no volante até inquietou Jéssica. Já próximos do HospitalSão Luiz foi, com efeito, preciso acelerar. Entramos na maternidade às 16h.Pontualmente. Dilatação total, bolsa estourada. Hora de correr. Fizemos o médico e a Obstetriz suarem mais que em aula de aeróbica power. Às 16h10 já estávamos paramentados, todos, na sala de partos. María sentou no banquinho às 16h12. Empurrou uma primeira vez. A contração não era boa. Espera outra mais forte, disseram. Logo veio. Empurra.Força que está saindo, alguém disse. Nasceu. Como um sopro, sem analgesia(porque não deu tempo). Assim veio ao mundo Inés, às 16h15, na latitude sul de São Paulo, no Brasil. Intensa e naturalmente.

Comentários